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8 de agosto de 2016

No CV, uma Ferrari. No trabalho, um Gurgel.

Tenho CERTEZA de que a maioria dos leitores, já se deparou com um profissional o qual CV a.k.a. Curriculum Vitae, enchia os olhos e despertava no melhor RH, aquela sensação de que aquele é o profissional que a empresa precisa. Veja a sedução:

  • Conquistas olímpicas com metas sempre alcançadas e superadas em no mínimo 50%.
  • Títulos e honras que nenhum Marechal já sonhou
  • Certificados que fariam o MacGyver se sentir um inútil
  • Uma galáxia de habilidades em software e hardware
  • Fluente em 3 ou mais idiomas
  • Formação superior/Pós/Mestrado/Doutorado/MBA/PMP/ETC
  • Experiência de um Rei em inúmeras empresas multinacionais

Mas na hora do vamos ver, esse profissional não condiz com sua vasta condição curricular e a performance é próxima ou igual ao do estagiário. O que aconteceu???

 

Existem inúmeros fatores, mas o mais comum entre eles é:  A dinâmica do mundo mudou.

Deixo bem claro que, não estou aqui para desmerecer os profissionais e nem as formações, isto é um texto reflexivo, não crítico.

Se a dinâmica do mundo mudou, porque ainda continuamos a exercer exatamente o mesmo padrão de avaliação em nossos Departamentos de Recursos Humanos?

Eu já me deparei com inúmeros profissionais aos quais eu admirava, e invejava, os respectivos CVs. O CV destes profissionais era algo fora do comum, se destacavam pela excelência, pela formação e pelas habilidades raras encontradas no mercado. Quem é competitivo, sabe a sensação de ver alguém melhor que você, mesmo que seja um CV. A expectativa de conhecer essa pessoa, de aprender algo com ela, cria uma tempestade de sentimentos, bons e ruins, na sua rotina monótona e sem perceber, você já está de olho nela no momento em que o RH anuncia a contratação.

A primeira sensação ao verificar o CV dele, é de impotência. Você sabe que não chega aos pés desse Rei, Grande Rei.

Aquela sensação de frustração de não ter aprendido um 4º idioma, aquele certificado que você deixou passar pela falta de tempo (desculpinha do dia-a-dia), aquele curso de Etiqueta Corporativa para alavancar a sua postura em reuniões que foi empurrado sempre para o próximo ano e assim sucessivamente, ano após ano, deixando de lado a documentação de sua capacidade.

Passada a primeira impressão depressiva, vem a expectativa de conhecê-lo, a ansiedade em conversar e descobrir o que se passa na cabeça desse Rei, Grande Rei.

1º Contato: Acontece a primeira conversa. Papo elegante, refinado, inteligente, rico e profundo. Com certeza já deu para sentir que ele tem um nível superior de intelecto e profundo conhecimento econômico e corporativo.

2º Contato: Skype Conference com potencial cliente. Percebe que o inglês dele não é tão bom quanto imaginava quando viu o CV. Ele tem um leve sotaque, a composição de frases não lhe parece correta e utiliza algumas palavras que você nunca ouviu na vida ou não consegue entender por causa da pronúncia. Mas é claro que o problema é você! Você não tem certificado de inglês, nunca testou seu inglês em nenhum exame TOEIC, TOEFL ou CPE, então fique na sua para não passar vergonha.

3º Contato: Reunião de Planejamento. Você tem a chance de ver o trabalho dele em ação, quer ver a planilha dele (que deve ser fantástica), o raciocínio por trás de cada metodologia de planejamento que ele possui, os conceitos que você nunca teve a chance de estudar por falta de oportunidade, quer que ele te ensine algumas dicas no Microsoft Project….. e percebe que ele planeja tudo na caneta e papel, no máximo, no corpo do e-mail ou no Word. Não se desespere, existe algum motivo divino por trás dessas atitudes, afinal, o que você é perto dele, plebeu?

4º Contato: Na troca de e-mails, onde você se encontra em CC, percebe que ele delega muita coisa, mas acaba se contradizendo também e fazendo coisas que havia delegado para outrém e começa a escutar a rádio peão falando mal dele, pois ele está insistentemente, delegando e revogando as tarefas além de nunca cumprir com o horário e prazo dos trabalhos. Você começa a juntar as peças e começa a se questionar: Mas o que está acontecendo com o Rei?

Infelizmente, esse seu Rei foi ultrapassado pela dinâmica do mundo.

Este mundo criou o computador pessoal, a internet, o smartphone, as redes sociais, o e-mail, o conceito de sharing economy e trocou a palavra empregados porcolaboradores.

O Rei se foca tanto em suas qualidades, que esquece de olhar a qualidade dos outros de forma mais eficiente, e acaba enxergando tudo e todos como incompetentes em sua visão. Ele os olha como empregados, não como colaboradores. Seu CV lhe dá status de CHEFE e não de LÍDER.

Existe um lado negativo em obter tantos certificados e possuir um CV divino, aarrogância e egocentrismo.

  • Só porque o subordinado dele não tem nenhum certificado de inglês, ele acha que é superior no idioma. Mal sabe o Rei, que o subordinado é fluente de verdade pois estudou por conta e treinou a pronúncia assistindo filmes e seriados, desde os 6 anos de idade.
  • O subordinado não tem nenhum certificado da Microsoft que ateste que ele é profissional em suas ferramentas, logo, ele subestima a capacidade dele. Mal sabe o Rei, que o subordinado é auto-didata e que aprendeu cada função do Excel usando o F1 (Ajuda) e ainda produz vídeos no YouTube ensinando gratuitamente quem quisesse aprender.
  • O subordinado nunca trabalhou em uma multinacional, nunca saberá se portar em um reunião com parceiros globais. Mal sabe o Rei, que o hobby do subordinado é viajar para diferentes países todo ano e absorver a sua cultura por completo. O subordinado poderia ter ajudado com aquele cliente oriental, que achou um absurdo o Rei conversar olhando fixamente nos olhos como se quisesse engolí-lo, e deixou a sala com repúdio e não fechou o negócio.

Novamente, não estou afirmando que existe uma relação direta com um CV recheado e arrogância ou egocentrismo. É puramente para refletir se você não faz, ou fazia, alguma das coisas citadas acima.

REFLITA

Será que você avalia o seu companheiro/chefe/subordinado/líder de trabalho pelo CV, ou pelas qualidades que são impossíveis de se descrever no CV?

Será que você se subestima por não ter qualificações oficiais e tradicionais (Títulos, Certificados de Conclusão)?

Será que o Fordismo, em sua gestão tradicional, funcionaria em uma empresa moderna como o Google ou Facebook?

Obviamente, um certificado ou alguma evidência de conclusão, são indícios de que aquela pessoa possui os conhecimentos que procura na contratação, mas não devem servir como verdade absoluta, pois a verdadeira habilidade aparece no dia-a-dia da empresa.

Talvez os Departamentos de RH devessem modernizar a sua forma de contratação e avaliação, pois ainda, continuamos a usar o padrão CV->Entrevista->Teste de Raciocínio Lógico->Critério de Pontuação como métodos de avaliação de um candidato.

E ainda tem casos de dinâmica em grupo entre os concorrentes da vaga. Sério mesmo que alguém sugere uma dinâmica de grupo entre os concorrentes? É como jogar Gladiadores na Arena, eles não querem mostrar suas habilidades verdadeiras, querem é matar o outro e ganhar a vaga, custe o que custar.

A dinâmica do mundou mudou e o conhecimento ficou mais acessível, não é possível avaliar em 100% a habilidade e capacidade da pessoa apenas com seu CV hoje em dia.

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