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16 de agosto de 2016

Trabalhe com o que você ama e fique perdido para pagar as contas.

 Quem nunca escutou ou leu na vida a famosa frase: “Trabalhe com o que você ama que o dinheiro é consequência”?

 

Assim como toda teoria, é muito bonito ler na parede, no Linkedin, em caminhão, mas na prática, é um conselho no mínimo irresponsável que alguém poderia dar ao outro. Eu não chamo isso de conselho, e sim, de vingança.

A subjetividade da frase não considera o amor em sua variedade cultural e pessoal, abrindo brechas para que as pessoas interpretem esta frase da forma que elas quiserem, sem pensarem nas consequências que isso pode trazer.

 

Situação 1: Eu amo comer e quero ganhar dinheiro comendo.

Ótimo, você pode ser um degustador em alguma empresa e analisar o alimento em produção o dia todo, comendo a mesma comida todo dia, ou você acha que vai se deliciar em um banquete colonial com menu variado todo dia?

O que era amor no começo, pode virar uma frustração. Nem o mais caro caviar dará prazer se consumido todo dia, pois deixou de ser gourmet e virou rotina.

 

Situação 2: Eu amo jogar videogame e quero ganhar dinheiro jogando o dia todo!

É sonho de todo adolescente, ser pago para jogar jogos de videogame o dia todo. Infelizmente, a realidade também não é tão agradável assim. Receber dinheiro para jogar, significa analisar o jogo por uma outra visão, a visão analítica e não meramente consumerista. Você não sairá jogando a fase e tendo a imersão como consumidor em primeira mão. Você vai apertar botões, executar a mesma ação repetidamente, buscar por falhas e ainda, montar um relatório sobre cada teste realizado. Além disso, a maioria exige sigilo, logo, esqueça a ostentação no Instagram ou Facebook, ninguém saberá o que você jogou e você não poderá falar.

Imagine você no Street Fighter V, soltando Hadouken 100 vezes, Shoryuken 100 vezes e o Tatsumakisempukyaku 100 vezes e tendo que analisar se realmente o comando foi executado de forma eficiente e/ou falhou. Novamente, o amor pode acabar virando frustração.

 

Situação 3: Eu amo jogar Futebol e quero viver disso.

Você e todo o Brasil quer. Querer é uma coisa, ser capaz é outra.

Você largaria o seu trabalho atual para lutar por uma vaga de jogador de futebol aos 30 anos só porque você ama? Isso não é amor, é delírio.

Retrato situações bem extremas mesmo, pois a amplitude do amor é quase infinita, e claro, não é generalizado, existem sim, pessoas que começaram com algo que eles realmente amavam e hoje, ganham muito dinheiro, mas novamente, não é a maioria dos casos.

 

A frase “Trabalhe com o que você ama” teria um significado muito mais direcionado se fosse trocado para “Aprenda a amar o seu trabalho”.

Se todos trabalhassem com algo que amam, a máquina não giraria, ou será que as pessoas acham que o lixeiro tem realmente amor em tirar os lixos das ruas ou o limpador de esgoto realmente ama limpar dejetos humanos no subsolo? Será que quem abate gado, realmente tem amor no que faz?

Indiferente do âmbito motivacional, considero essa frase extremamente irresponsável, pois alimenta a insatisfação do trabalhador, cutuca suas frustrações com o trabalho e pior, cria ilusões de que é possível ganhar dinheiro fazendo o que se ama, mas não o direciona sobre os preparativos para se conquistar isso ou as condições para atingir.

 

Com isso, temos vários sonhadores no Brasil:

1. Sonhadores Corporativos: Sonham na frente do computador da empresa ao invés de executar a função pela qual foi contratada. Depois a performance fica baixa e o problema sempre é o trabalho/empresa.

2. Sonhadores Virtuais: Sonham em redes sociais ao invés de viver a vida em sua experiência plena. Passam mais tempo postando sobre coisas que gostariam de fazer, mas nunca colocam a mão na massa. Vivem de massagem de ego nas redes sociais.

3. Sonhadores Divinos: Sonham que um dia seus sonhos se tornarão realidade, se alimentam em esperanças, positivismo e seres etéreos. Normalmente, executam sem planejamento, sem organização, sem análise, tudo é feito na base do otimismo.

A maior parte dos sonhadores consegue atingir a meta de trabalhar no que ama, só esquecem da parte que eles precisam de dinheiro para pagar as contas da vida.

Mesmo aparentando um pouco calculista, eu corrigiria a frase para nivelar as expectativas do leitor para: “Trabalhe com o que você ama… mas antes, planeje o que irá fazer antes de fazê-lo, pois as suas contas também amam você e o acharão onde estiver.”

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